Defensor da democracia plena e crítico do neoliberalismo

Betinho, o COEP e um país mobilizado

A aproximação com o sociólogo Herbert de Sousa, o Betinho, marcou a vida de Pinguelli Rosa. Pouco depois de voltar do exílio, o sociólogo mineiro fundou em 1981 o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), que logo se tornou uma das mais influentes instituições da sociedade civil no Rio de Janeiro. Pinguelli e o amigo André Spitz, engenheiro de Furnas, tornaram-se frequentadores das reuniões mensais de análise de conjuntura promovidas pelo Ibase, onde discutiam questões do setor energético, entre outros assuntos.

Em 1990, Pinguelli assumiu a coordenação do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ com a intenção de tornar o palácio neoclássico um espaço de interlocução entre a universidade e a sociedade. Com este objetivo no horizonte, a aproximação com o “irmão do Henfil”, cantado na música O Bêbado e a Equilibrista, foi natural. “Ele era decepcionado com a política partidária. Defendia a participação direta da sociedade, de baixo para cima. E achava que a universidade deveria participar disso”, contou Pinguelli, em um depoimento em homenagem a Betinho, a quem chamava de seu “último guru”.

Em 1990, quando o Ibase organizou o evento “Terra e Democracia” e reuniu 200 mil pessoas no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, Pinguelli se engajou com entusiasmo, organizando demonstrações científicas para as crianças e até uma peça. “Durante dois dias, houve ali na nossa tenda apresentações de corais, de grupos de dança, de concertos de música eletroacústica e cenas teatrais ilustrando os momentos mais significativos da evolução histórica da física, escritas pelo próprio Pinguelli, com direção minha e de Ricardo Tamm”, lembrou a diretora Angela Leite Lopes em depoimento para o site.

Pela ética e contra a fome

Em 1992, as denúncias de corrupção no governo Fernando Collor de Mello ganharam destaque na imprensa e provocaram uma onda de indignação da sociedade. Betinho foi um dos principais articuladores do Movimento pela Ética na Política, mobilização que reuniu organizações da sociedade civil para exigir que a investigação das denúncias. Pinguelli abriu as portas do Fórum de Ciência e Cultura para as reuniões da articulação, que juntou grandes entidades como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a União dos Estudantes do Brasil (UNE) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A mobilização levou milhares de manifestantes às ruas em sucessivas manifestações e foi decisiva para o impeachment de Collor de Mello.

Depois da queda de Collor, Betinho, Spitz e Pinguelli participaram de uma reunião do Movimento Pela Ética na Política no Fórum de Ciência e Cultura. A ideia, contou Spitz em depoimento ao site, era fazer um balanço do movimento e discutir os próximos passos. “O pessoal estava discutindo: e agora, o que vamos fazer com esse movimento, com toda essa energia? Lá pelas tantas, dom Luciano Mendes de Almeida, que era uma pessoa brilhante, pediu a palavra: ‘Olha, eu acho que a gente deveria convergir essa nossa energia para a questão do combate à fome. Não existe mais nada mais aético no Brasil do que a fome’. Betinho apoiou e a partir dali começou a idealizar e a organizar no Ibase a Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida”.

A Ação da Cidadania foi um marco naquele Brasil de 1993, quando o “Mapa da Fome”
elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estimava que 32 milhões de brasileiros não tinham comida suficiente. No seu primeiro ano, a Ação da Cidadania chegou a contar com quatro mil comitês espalhados pelo país, de acordo com os cálculos do IBASE.

O COEP

Muitos desses comitês foram criados por uma iniciativa que teve origem em uma proposta de Spitz e Pinguelli, ambos entusiastas da Ação da Cidadania. Certo dia, Spitz procurou Pinguelli com um plano que os dois logo trataram de levar a Betinho. “A ideia era criar um comitê no âmbito da Ação da Cidadania composto por organizações, empresas, universidades e instituições públicas”, lembra Spitz. A inspiração vinha da discussão sobre o papel das estatais que permeava os debates sobre as privatizações e de revisão constitucional. “Betinho costumava dizer que as empresas estatais e também as privadas deveriam ser públicas, ou seja: relacionar-se com a comunidade, ter no conselho a participação de consumidores e grupos sociais e não ter o lucro como principal objetivo”, contou Spitz em depoimento. No COEP, continua ele, “Propusemos articular organizações e dar um sentido verdadeiramente público às empresas estatais e organizações governamentais, tendo o combate à fome como eixo”.

Assim teve início o trabalho de criação do Comitê de Entidades Públicas no Combate a Fome, a Miséria e pela Vida – COEP. Betinho e Pinguelli enviaram uma carta aos presidentes de estatais e outras empresas públicas convocando para uma reunião no Fórum de Ciência e Cultura, marcada para 28 de maio de 1993. “Mandamos a carta, assinada por Betinho e Pinguelli, para os presidentes das maiores empresas do Brasil: Eletrobras, Furnas, Chesf, Petrobras, BNDES, Banco do Brasil, Fiocruz, UFRJ, Embrapa, Banco do Nordeste, CEF, Finep, IBGE, Vale do Rio Doce, Embratel, Ipea, Ibase…. Eram trinta e tantas organizações. Foram todos!”, conta o engenheiro.

“Foi um momento histórico”, sintetizou Pinguelli, em depoimento sobre o COEP. Pela primeira vez, empresas estatais se reuniam para articular esforços em favor da população vulnerável. Betinho foi escolhido presidente e Spitz, secretário executivo do Comitê. Os executivos saíram do encontro com a missão de levantar as ações sociais que já eram realizadas e de elaborar novas propostas.

Uma das primeiras ações acordadas entre as instituições vinculadas ao COEP foi o incentivo à criação de comitês da Ação da Cidadania nas empresas. Só em Furnas Centrais Elétricas, surgiram 50 comitês. No Banco do Brasil, grande parte das agências tinha o seu – ao todo, foram mais de mil.

Em agosto, uma nova reunião dos presidentes marcou o início da articulação das instituições. Spitz dá exemplos das ideias apresentadas. “Houve propostas muito interessantes. A Petrobras, por exemplo, ia procurar petróleo no semiárido nordestino e, quando achava água, tampava o poço. A proposta da Petrobras era dar o uso público aos poços da água que encontravam. A Embratel ofereceu disponibilizar o uso do satélite para ações sociais. Daí surgiu o Canal Saúde, da Fiocruz. As empresas elétricas tinham muitas terras em torno dos reservatórios; a ideia era fazer hortas comunitárias e produzir peixes de forma sustentável em seus reservatórios.”

Algumas iniciativas deram origem a políticas públicas. A proposta de Roberto Bartholo de criar na Coppe uma incubadora de cooperativas populares entusiasmou Pinguelli. “A ideia foi tão inovadora e bem-sucedida que conseguimos mobilizar a parceria de entidades associadas ao COEP e, em 1997, criamos o Proninc – Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas de Trabalho, que apoiou a criação de sete incubadoras em sete universidades”, diz Spitz. Uma delas, na USP, era dirigida pelo economista Paul Singer, que ao se tornar Secretário Nacional de Economia Solidária fez da iniciativa uma política federal que resultou na implantação de incubadoras em mais de 100 universidades brasileiras.

Naquele mesmo ano, a morte de Betinho deixou o grupo preocupado. “Betinho era nossa maior referência e liderança mobilizadora. Eu não sabia se, sem ele, conseguiríamos levar o projeto adiante. No final do ano, fizemos uma reunião do Conselho Deliberativo do COEP em Brasília, que contou com a participação dos dirigentes das organizações associadas e da primeira-dama Ruth Cardoso. No encontro assumimos o compromisso de ir em frente. Fui indicado para assumir a presidência do COEP, o Pinguelli se tornou presidente de honra e Gleyse Peiter, de Furnas, assumiu a secretaria-executiva”, relata o engenheiro.

A parceria Spitz-Pinguelli, COEP-Coppe foi produtiva. Em 1996, depois que as chuvas no Rio de Janeiro mataram mais de uma centena de pessoas e deixaram 6.500 desabrigadas, o COEP convocou uma reunião de emergência. Além de planejar um esquema de doações de alimentos e roupas, os integrantes do Comitê discutiram ações de longo prazo. Era consenso que a repetição dos temporais no Rio de Janeiro, com efeitos dramáticos para a população, exigia ações preventivas dos governos federais, estaduais e municipais. Surgiu ali a ideia do Seminário Prevenção e Controle dos Efeitos dos Temporais no Rio de Janeiro, realizado pela Coppe, com a parceria das várias entidades que formavam o comitê. Os debates deram origem ao livro Tormentas Cariocas, referência no tema.

“Pinguelli sempre pensou em colocar a universidade a serviço da sociedade. E isso virou uma prática da Coppe: mobilizar o conhecimento técnico para promover o debate e soluções para melhorar a vida da população. Assim, a Coppe ganhou uma imagem muito positiva aos olhos da sociedade’, sintetiza Spitz.

Em 2009, o COEP propôs a Pinguelli a criação do Grupo de Trabalho “Mudanças Climáticas, Pobreza e Desigualdades” no âmbito do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Foi uma experiência inovadora, que trouxe para o debate das mudanças climáticas organizações populares e a discussão sobre a pobreza no contexto das transformações do clima. Desse trabalho resultou a pesquisa “Mudanças Climáticas, Desigualdades Sociais e Populações Vulneráveis no Brasil: Construindo Capacidades” feita em parceria com o Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais (IVIG) da Coppe/UFRJ e do Centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional (Ceresan/UFRRJ). O GT gerou ainda um documento, elaborado com a participação de dezenas de entidades, intitulado “Subsídios para a Elaboração do Plano Nacional de Adaptação aos Impactos Humanos das Mudanças Climáticas”, entregue à presidente Dilma Rousseff.

No mesmo ano, o COEP ganhou na Coppe um espaço especial, batizado Laboratório Herbert de Souza – Tecnologia e Cidadania em homenagem a Betinho. O espaço é dedicado a articular desenvolvimento tecnológico e inovação social, por meio da valorização e da troca de saberes tradicionais e científicos, e a promover a interação entre a universidade e a comunidade.

Ao longo de quase 30 anos de atuação, o COEP Brasil ganhou unidades na maioria dos estados do Brasil e se configurou como uma rede nacional. Em 2021, Pinguelli gravou um depoimento para saudar os 28 anos da organização que ajudara a fundar: “A memória do COEP é extremamente importante. Ela deve nos alimentar na busca da construção de um futuro que vença as dificuldades que hoje se apresentam. As condições atuais são muito piores e o COEP tem feito uma resistência heroica. O COEP tem de resistir. Atividades como ele são pilares da democracia”.

(O COEP) Transcende a questão da pobreza, da fome, é uma questão da democracia no Brasil. Atividades como o COEP são pilares da democracia – que está ameaçada. “

Pinguelli, em depoimento dado nos 28 anos do COEP, em 2021

Betinho, o COEP e um país mobilizado

A aproximação com o sociólogo Herbert de Sousa, o Betinho, marcou a vida de Pinguelli Rosa. Pouco depois de voltar do exílio, o sociólogo mineiro fundou em 1981 o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), que logo se tornou uma das mais influentes instituições da sociedade civil no Rio de Janeiro. Pinguelli e o amigo André Spitz, engenheiro de Furnas, tornaram-se frequentadores das reuniões mensais de análise de conjuntura promovidas pelo Ibase, onde discutiam questões do setor energético, entre outros assuntos.

Em 1990, Pinguelli assumiu a coordenação do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ com a intenção de tornar o palácio neoclássico um espaço de interlocução entre a universidade e a sociedade. Com este objetivo no horizonte, a aproximação com o “irmão do Henfil”, cantado na música O Bêbado e a Equilibrista, foi natural. “Ele era decepcionado com a política partidária. Defendia a participação direta da sociedade, de baixo para cima. E achava que a universidade deveria participar disso”, contou Pinguelli, em um depoimento em homenagem a Betinho, a quem chamava de seu “último guru”.

Em 1990, quando o Ibase organizou o evento “Terra e Democracia” e reuniu 200 mil pessoas no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, Pinguelli se engajou com entusiasmo, organizando demonstrações científicas para as crianças e até uma peça. “Durante dois dias, houve ali na nossa tenda apresentações de corais, de grupos de dança, de concertos de música eletroacústica e cenas teatrais ilustrando os momentos mais significativos da evolução histórica da física, escritas pelo próprio Pinguelli, com direção minha e de Ricardo Tamm”, lembrou a diretora Angela Leite Lopes em depoimento para o site.

Pela ética e contra a fome

Em 1992, as denúncias de corrupção no governo Fernando Collor de Mello ganharam destaque na imprensa e provocaram uma onda de indignação da sociedade. Betinho foi um dos principais articuladores do Movimento pela Ética na Política, mobilização que reuniu organizações da sociedade civil para exigir que a investigação das denúncias. Pinguelli abriu as portas do Fórum de Ciência e Cultura para as reuniões da articulação, que juntou grandes entidades como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a União dos Estudantes do Brasil (UNE) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A mobilização levou milhares de manifestantes às ruas em sucessivas manifestações e foi decisiva para o impeachment de Collor de Mello.

Depois da queda de Collor, Betinho, Spitz e Pinguelli participaram de uma reunião do Movimento Pela Ética na Política no Fórum de Ciência e Cultura. A ideia, contou Spitz em depoimento ao site, era fazer um balanço do movimento e discutir os próximos passos. “O pessoal estava discutindo: e agora, o que vamos fazer com esse movimento, com toda essa energia? Lá pelas tantas, dom Luciano Mendes de Almeida, que era uma pessoa brilhante, pediu a palavra: ‘Olha, eu acho que a gente deveria convergir essa nossa energia para a questão do combate à fome. Não existe mais nada mais aético no Brasil do que a fome’. Betinho apoiou e a partir dali começou a idealizar e a organizar no Ibase a Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida”.

A Ação da Cidadania foi um marco naquele Brasil de 1993, quando o “Mapa da Fome”
elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estimava que 32 milhões de brasileiros não tinham comida suficiente. No seu primeiro ano, a Ação da Cidadania chegou a contar com quatro mil comitês espalhados pelo país, de acordo com os cálculos do IBASE.

O COEP

Muitos desses comitês foram criados por uma iniciativa que teve origem em uma proposta de Spitz e Pinguelli, ambos entusiastas da Ação da Cidadania. Certo dia, Spitz procurou Pinguelli com um plano que os dois logo trataram de levar a Betinho. “A ideia era criar um comitê no âmbito da Ação da Cidadania composto por organizações, empresas, universidades e instituições públicas”, lembra Spitz. A inspiração vinha da discussão sobre o papel das estatais que permeava os debates sobre as privatizações e de revisão constitucional. “Betinho costumava dizer que as empresas estatais e também as privadas deveriam ser públicas, ou seja: relacionar-se com a comunidade, ter no conselho a participação de consumidores e grupos sociais e não ter o lucro como principal objetivo”, contou Spitz em depoimento. No COEP, continua ele, “Propusemos articular organizações e dar um sentido verdadeiramente público às empresas estatais e organizações governamentais, tendo o combate à fome como eixo”.

Assim teve início o trabalho de criação do Comitê de Entidades Públicas no Combate a Fome, a Miséria e pela Vida – COEP. Betinho e Pinguelli enviaram uma carta aos presidentes de estatais e outras empresas públicas convocando para uma reunião no Fórum de Ciência e Cultura, marcada para 28 de maio de 1993. “Mandamos a carta, assinada por Betinho e Pinguelli, para os presidentes das maiores empresas do Brasil: Eletrobras, Furnas, Chesf, Petrobras, BNDES, Banco do Brasil, Fiocruz, UFRJ, Embrapa, Banco do Nordeste, CEF, Finep, IBGE, Vale do Rio Doce, Embratel, Ipea, Ibase…. Eram trinta e tantas organizações. Foram todos!”, conta o engenheiro.

“Foi um momento histórico”, sintetizou Pinguelli, em depoimento sobre o COEP. Pela primeira vez, empresas estatais se reuniam para articular esforços em favor da população vulnerável. Betinho foi escolhido presidente e Spitz, secretário executivo do Comitê. Os executivos saíram do encontro com a missão de levantar as ações sociais que já eram realizadas e de elaborar novas propostas.

Uma das primeiras ações acordadas entre as instituições vinculadas ao COEP foi o incentivo à criação de comitês da Ação da Cidadania nas empresas. Só em Furnas Centrais Elétricas, surgiram 50 comitês. No Banco do Brasil, grande parte das agências tinha o seu – ao todo, foram mais de mil.

Em agosto, uma nova reunião dos presidentes marcou o início da articulação das instituições. Spitz dá exemplos das ideias apresentadas. “Houve propostas muito interessantes. A Petrobras, por exemplo, ia procurar petróleo no semiárido nordestino e, quando achava água, tampava o poço. A proposta da Petrobras era dar o uso público aos poços da água que encontravam. A Embratel ofereceu disponibilizar o uso do satélite para ações sociais. Daí surgiu o Canal Saúde, da Fiocruz. As empresas elétricas tinham muitas terras em torno dos reservatórios; a ideia era fazer hortas comunitárias e produzir peixes de forma sustentável em seus reservatórios.”

Algumas iniciativas deram origem a políticas públicas. A proposta de Roberto Bartholo de criar na Coppe uma incubadora de cooperativas populares entusiasmou Pinguelli. “A ideia foi tão inovadora e bem-sucedida que conseguimos mobilizar a parceria de entidades associadas ao COEP e, em 1997, criamos o Proninc – Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas de Trabalho, que apoiou a criação de sete incubadoras em sete universidades”, diz Spitz. Uma delas, na USP, era dirigida pelo economista Paul Singer, que ao se tornar Secretário Nacional de Economia Solidária fez da iniciativa uma política federal que resultou na implantação de incubadoras em mais de 100 universidades brasileiras.

Naquele mesmo ano, a morte de Betinho deixou o grupo preocupado. “Betinho era nossa maior referência e liderança mobilizadora. Eu não sabia se, sem ele, conseguiríamos levar o projeto adiante. No final do ano, fizemos uma reunião do Conselho Deliberativo do COEP em Brasília, que contou com a participação dos dirigentes das organizações associadas e da primeira-dama Ruth Cardoso. No encontro assumimos o compromisso de ir em frente. Fui indicado para assumir a presidência do COEP, o Pinguelli se tornou presidente de honra e Gleyse Peiter, de Furnas, assumiu a secretaria-executiva”, relata o engenheiro.

A parceria Spitz-Pinguelli, COEP-Coppe foi produtiva. Em 1996, depois que as chuvas no Rio de Janeiro mataram mais de uma centena de pessoas e deixaram 6.500 desabrigadas, o COEP convocou uma reunião de emergência. Além de planejar um esquema de doações de alimentos e roupas, os integrantes do Comitê discutiram ações de longo prazo. Era consenso que a repetição dos temporais no Rio de Janeiro, com efeitos dramáticos para a população, exigia ações preventivas dos governos federais, estaduais e municipais. Surgiu ali a ideia do Seminário Prevenção e Controle dos Efeitos dos Temporais no Rio de Janeiro, realizado pela Coppe, com a parceria das várias entidades que formavam o comitê. Os debates deram origem ao livro Tormentas Cariocas, referência no tema.

“Pinguelli sempre pensou em colocar a universidade a serviço da sociedade. E isso virou uma prática da Coppe: mobilizar o conhecimento técnico para promover o debate e soluções para melhorar a vida da população. Assim, a Coppe ganhou uma imagem muito positiva aos olhos da sociedade’, sintetiza Spitz.

Em 2009, o COEP propôs a Pinguelli a criação do Grupo de Trabalho “Mudanças Climáticas, Pobreza e Desigualdades” no âmbito do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Foi uma experiência inovadora, que trouxe para o debate das mudanças climáticas organizações populares e a discussão sobre a pobreza no contexto das transformações do clima. Desse trabalho resultou a pesquisa “Mudanças Climáticas, Desigualdades Sociais e Populações Vulneráveis no Brasil: Construindo Capacidades” feita em parceria com o Instituto Virtual Internacional de Mudanças Globais (IVIG) da Coppe/UFRJ e do Centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional (Ceresan/UFRRJ). O GT gerou ainda um documento, elaborado com a participação de dezenas de entidades, intitulado “Subsídios para a Elaboração do Plano Nacional de Adaptação aos Impactos Humanos das Mudanças Climáticas”, entregue à presidente Dilma Rousseff.

No mesmo ano, o COEP ganhou na Coppe um espaço especial, batizado Laboratório Herbert de Souza – Tecnologia e Cidadania em homenagem a Betinho. O espaço é dedicado a articular desenvolvimento tecnológico e inovação social, por meio da valorização e da troca de saberes tradicionais e científicos, e a promover a interação entre a universidade e a comunidade.

Ao longo de quase 30 anos de atuação, o COEP Brasil ganhou unidades na maioria dos estados do Brasil e se configurou como uma rede nacional. Em 2021, Pinguelli gravou um depoimento para saudar os 28 anos da organização que ajudara a fundar: “A memória do COEP é extremamente importante. Ela deve nos alimentar na busca da construção de um futuro que vença as dificuldades que hoje se apresentam. As condições atuais são muito piores e o COEP tem feito uma resistência heroica. O COEP tem de resistir. Atividades como ele são pilares da democracia”.

(O COEP) Transcende a questão da pobreza, da fome, é uma questão da democracia no Brasil. Atividades como o COEP são pilares da democracia – que está ameaçada.  “

Pinguelli, em depoimento dado nos 28 anos do COEP, em 2021

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Betinho apresenta a campanha contra fome (Videoteca Virtual Gregório Bezerra)
Reunião para a criação do COEP (COEP Brasil, mai 1993)
Betinho fala em Furnas sobre a campanha contra a fome (COEP Brasil, jun 1993)
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Pinguelli fala sobre Betinho (COEP Brasil, jul 2017)
Pinguelli relembra sua participação na história do COEP (COEP Brasil, 2021)