Ciência, tecnologia e sociedade

Fórum de Ciência e Cultura

No seu livro de memórias, Pinguelli definiu sua nomeação como coordenador do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ como um “exílio” do campus do Fundão e da Coppe. Poucos exílios foram tão produtivos. Entre 1990 e 1993, Pinguelli tornou o Fórum um centro de debates sobre o setor de Energia e a articulação de movimentos da sociedade civil. Além disso, mostrou o seu talento como gestor, recuperando dois importantes patrimônios históricos do Rio de Janeiro: o Palácio Universitário e o Museu Histórico Nacional.

Fernando Peregrino, engenheiro e amigo que Pinguelli convidou como superintendente do Fórum, foi o responsável pela recuperação do Palácio Universitário, belíssimo prédio inaugurado por D. Pedro II em 1852 como um hospício. Em seu depoimento para este site, ele lembra que o lugar estava em péssimas condições. “O cenário era de guerra. Um lustre do salão dourado, belíssima obra de arte, estava no chão todo quebrado; o salão Moniz Aragão estava sem lâmpadas e sujo; havia corredores apagados, paredes estragadas …. Tudo estava mal conservado”, escreveu Peregrino. Feita com pouco dinheiro e muita criatividade, a obra devolveu o brilho ao palácio, antiga sede da reitoria da UFRJ.

Mal terminara o primeiro palácio, Pinguelli se voltou para a recuperação do segundo: a sede do Museu Nacional, unidade vinculada ao Fórum, na Quinta da Boa Vista. “O prédio tinha muita madeira e estava superlotado com o acervo do Museu, com coleções de botânica, zoologia e antropologia de valor inestimável, únicas no mundo. O problema é que eram inflamáveis. Havia uma mistura explosiva ali”, recordou Pinguelli na sua autobiografia.

Uma das emergências do Museu era a má conservação de uma milenar múmia egípcia, que havia sido atingida por goteiras. Pinguelli buscou recursos para a obra no governo federal e de doadores particulares para tocar o projeto. Em busca de fundos, ele até conseguiu aumentar o valor irrisório dos aluguéis que a casa de shows Canecão pagava ao Fórum – o dinheiro custeou parte das obras. Pinguelli também modernizou a editora da UFRJ, sob comando de Heloísa Buarque de Hollanda, criando uma comissão editorial para seleção de títulos, e obteve verbas para ampliar o acervo da Biblioteca Central da UFRJ, que assumiu a coordenação de todas as bibliotecas da UFRJ.
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Espaço aberto à sociedade

A gestão de Pinguelli também foi marcante por transformar o Fórum de Ciência e Cultura em espaço aberto à sociedade. Sempre inquieto, ele trouxe o debate sobre as questões mais importantes do país para os salões do centenário Palácio Universitário. Do funk aos concertos de música de câmara, passando pelas peças de vanguarda, o lugar abrigou eventos representativos diversidade da cultura no Rio. Entusiasmado com a ideia de atrair novos públicos para o conhecimento científico, montou com a diretora Angela Leite Lopes uma peça sobre Galileu durante um evento cultural organizado por Betinho no parque Aterro do Flamengo.

O prédio na Avenida Pasteur também sediou grandes eventos. Durante a Rio-92, a Conferência Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente, Pinguelli organizou com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) a Rio Ciência-92, evento paralelo que reuniu mais de 500 cientistas de 180 países.

“Pinguelli alargava o horizonte das organizações em que estava. Era muito empreendedor, estava sempre pensando em criar coisas novas, em inovar”, lembra o amigo André Spitz, parceiro em uma série que iniciativas que tiveram o Fórum como local de encontro.

Uma delas foi a criação do Fórum de Energia, um espaço de discussão sobre o setor elétrico e de petróleo. “Pinguelli conseguia reunir nos encontros o pessoal dos sindicatos, das empresas privadas, das empresas federais e estaduais também. Era um espaço de diálogo e articulação destes grupos”, escreveu Spitz, no depoimento que fez para o site. Apesar do seu caráter informal, o Fórum de Energia foi uma plataforma para que Pinguelli participasse da discussão sobre as privatizações do setor elétrico, dialogando com parlamentares e com o presidente Itamar Franco.

Nesta época Pinguelli também aprofundou ainda mais suas relações com o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que costumava encontrar nas reuniões de avaliação de conjuntura promovidas no Ibase. Betinho era um dos líderes do Movimento pela Ética na Política, mobilização nacional contra as denúncias de corrupção no governo de Collor de Mello, que levou centenas de milhares de pessoas às ruas. No Rio de Janeiro, as reuniões de coordenação do movimento aconteciam no Fórum.

Após o impechament de Collor de Mello, o Fórum abrigou uma reunião de balanço sobre o movimento. Mais uma vez, André Spitz relata: “As pessoas se perguntavam: “O que a gente vai fazer agora, com essa energia, com esse movimento que a gente criou?”. Dom Luciano Mendes de Almeida, que era uma pessoa brilhante, pediu a palavra: “Olha, eu acho que a gente deveria convergir essa nossa energia para a questão do combate à fome. Não existe mais nada mais aético no Brasil do que a fome”. O encontro resultou no lançamento da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, uma mobilização nacional lançada em 24 de abril de 1993.

No mesmo ano, o Fórum também abrigou a primeira reunião do COEP Brasil, uma articulação de empresas dedicada a somar esforços em projetos para a redução da pobreza. Iniciativa de Spitz, Betinho e Pinguelli, o novo espaço reuniu 33 presidentes de empresas estatais para, pela primeira vez, tratar de um tema que ia além dos seus negócios.

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Reuni sob a coordenação do Fórum várias funções que regimentalmente deviam estar ligadas a ele, mas tinham sido antes subtraídas: a Editora, a Biblioteca Central e o Museu Nacional, que fica na Quinta da Boa Vista “

Pinguelli , extraído do livro Memórias – De Vargas a Lula

Fórum de Ciência e Cultura

No seu livro de memórias, Pinguelli definiu sua nomeação como coordenador do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ como um “exílio” do campus do Fundão e da Coppe. Poucos exílios foram tão produtivos. Entre 1990 e 1993, Pinguelli tornou o Fórum um centro de debates sobre o setor de Energia e a articulação de movimentos da sociedade civil. Além disso, mostrou o seu talento como gestor, recuperando dois importantes patrimônios históricos do Rio de Janeiro: o Palácio Universitário e o Museu Histórico Nacional.

Fernando Peregrino, engenheiro e amigo que Pinguelli convidou como superintendente do Fórum, foi o responsável pela recuperação do Palácio Universitário, belíssimo prédio inaugurado por D. Pedro II em 1852 como um hospício. Em seu depoimento para este site, ele lembra que o lugar estava em péssimas condições. “O cenário era de guerra. Um lustre do salão dourado, belíssima obra de arte, estava no chão todo quebrado; o salão Moniz Aragão estava sem lâmpadas e sujo; havia corredores apagados, paredes estragadas …. Tudo estava mal conservado”, escreveu Peregrino. Feita com pouco dinheiro e muita criatividade, a obra devolveu o brilho ao palácio, antiga sede da reitoria da UFRJ.

Mal terminara o primeiro palácio, Pinguelli se voltou para a recuperação do segundo: a sede do Museu Nacional, unidade vinculada ao Fórum, na Quinta da Boa Vista. “O prédio tinha muita madeira e estava superlotado com o acervo do Museu, com coleções de botânica, zoologia e antropologia de valor inestimável, únicas no mundo. O problema é que eram inflamáveis. Havia uma mistura explosiva ali”, recordou Pinguelli na sua autobiografia.

Uma das emergências do Museu era a má conservação de uma milenar múmia egípcia, que havia sido atingida por goteiras. Pinguelli buscou recursos para a obra no governo federal e de doadores particulares para tocar o projeto. Em busca de fundos, ele até conseguiu aumentar o valor irrisório dos aluguéis que a casa de shows Canecão pagava ao Fórum – o dinheiro custeou parte das obras. Pinguelli também modernizou a editora da UFRJ, sob comando de Heloísa Buarque de Hollanda, criando uma comissão editorial para seleção de títulos, e obteve verbas para ampliar o acervo da Biblioteca Central da UFRJ, que assumiu a coordenação de todas as bibliotecas da UFRJ.

Espaço aberto à sociedade

A gestão de Pinguelli também foi marcante por transformar o Fórum de Ciência e Cultura em espaço aberto à sociedade. Sempre inquieto, ele trouxe o debate sobre as questões mais importantes do país para os salões do centenário Palácio Universitário. Do funk aos concertos de música de câmara, passando pelas peças de vanguarda, o lugar abrigou eventos representativos diversidade da cultura no Rio. Entusiasmado com a ideia de atrair novos públicos para o conhecimento científico, montou com a diretora Angela Leite Lopes uma peça sobre Galileu durante um evento cultural organizado por Betinho no parque Aterro do Flamengo.

O prédio na Avenida Pasteur também sediou grandes eventos. Durante a Rio-92, a Conferência Mundial de Desenvolvimento e Meio Ambiente, Pinguelli organizou com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) a Rio Ciência-92, evento paralelo que reuniu mais de 500 cientistas de 180 países.

“Pinguelli alargava o horizonte das organizações em que estava. Era muito empreendedor, estava sempre pensando em criar coisas novas, em inovar”, lembra o amigo André Spitz, parceiro em uma série que iniciativas que tiveram o Fórum como local de encontro.

Uma delas foi a criação do Fórum de Energia, um espaço de discussão sobre o setor elétrico e de petróleo. “Pinguelli conseguia reunir nos encontros o pessoal dos sindicatos, das empresas privadas, das empresas federais e estaduais também. Era um espaço de diálogo e articulação destes grupos”, escreveu Spitz, no depoimento que fez para o site. Apesar do seu caráter informal, o Fórum de Energia foi uma plataforma para que Pinguelli participasse da discussão sobre as privatizações do setor elétrico, dialogando com parlamentares e com o presidente Itamar Franco.

Nesta época Pinguelli também aprofundou ainda mais suas relações com o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que costumava encontrar nas reuniões de avaliação de conjuntura promovidas no Ibase. Betinho era um dos líderes do Movimento pela Ética na Política, mobilização nacional contra as denúncias de corrupção no governo de Collor de Mello, que levou centenas de milhares de pessoas às ruas. No Rio de Janeiro, as reuniões de coordenação do movimento aconteciam no Fórum.

Após o impechament de Collor de Mello, o Fórum abrigou uma reunião de balanço sobre o movimento. Mais uma vez, André Spitz relata: “As pessoas se perguntavam: “O que a gente vai fazer agora, com essa energia, com esse movimento que a gente criou?”. Dom Luciano Mendes de Almeida, que era uma pessoa brilhante, pediu a palavra: “Olha, eu acho que a gente deveria convergir essa nossa energia para a questão do combate à fome. Não existe mais nada mais aético no Brasil do que a fome”. O encontro resultou no lançamento da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, uma mobilização nacional lançada em 24 de abril de 1993.

No mesmo ano, o Fórum também abrigou a primeira reunião do COEP Brasil, uma articulação de empresas dedicada a somar esforços em projetos para a redução da pobreza. Iniciativa de Spitz, Betinho e Pinguelli, o novo espaço reuniu 33 presidentes de empresas estatais para, pela primeira vez, tratar de um tema que ia além dos seus negócios.

Reuni sob a coordenação do Fórum várias funções que regimentalmente deviam estar ligadas a ele, mas tinham sido antes subtraídas: a Editora, a Biblioteca Central e o Museu Nacional, que fica na Quinta da Boa Vista “

Pinguelli , extraído do livro Memórias – De Vargas a Lula

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